Hospital da Providência

Entenda o Processo de Captação de Órgãos e Tecidos PDF Imprimir E-mail

Existem duas diferentes situações que permitem a captação dos órgãos, a fim de que estejam em condições viáveis para o transplante: quando ocorre a parada cardio respiratória, o paciente tem idade inferior a 65 anos e não é portador de doença infecciosa; ou quando o possível doador entra em morte encefálica. Neste caso, geralmente são pacientes em Unidades de Terapia Intensiva (UTI), que foram vítimas de traumatismo craniano, derrame cerebral ou aneurisma, entre outras causas.

O potencial doador é submetido a uma bateria de exames clínicos (realizados por dois médicos em períodos diferentes) e laboratoriais (para constatação de infecções e/ou doenças infecciosas), identificando deste modo se existem as condições ideais e necessárias à captação de órgãos.
A morte encefálica somente é constatada por meio dos exames ECG (Eletro encefalograma) ou Arteriografia, acompanhada por um médico neurologista. A Figura 1 mostra uma situação de normalidade, ou seja, em que o fluxo sanguíneo está preservado e o potencial doador está com vida. Na Figura 2, não se observa fluxo sanguíneo na Artéria Carótida Interna. Com esta ausência de fluxo sanguíneo observada nos 4 vasos, o diagnóstico de morte encefálica é documentado.

     

Figura1: Angiografia Cerebral Normal               Figura2: Angiografia Cerebral com Ausência de Fluxo Sanguíneo Intracraniano.

A definição legal de morte está baseada na ausência de funções cerebrais, ainda que o coração do potencial doador continue a bater. A ausência de atividade cerebral implica na constatação da morte do paciente.
Encontrando-se o potencial doador nestas condições, desenvolve-se um trabalho de abordagem familiar. A comissão de abordagem é composta por Médicos, Enfermeiros, Assistentes Sociais e outros, afim de que os familiares possam ser esclarecidos sobre a morte e a possibilidade de captação de órgãos, pois de acordo com a Lei nº 10.211 de 2001, a retirada de órgãos só pode ocorrer perante autorização assinada por familiares.
Cada minuto que se passa é de extrema importância para a pessoa receptora que aguarda na fila de transplantes.
Os órgãos e tecidos que podem ser captados para doação são: coração, válvulas cardíacas, pulmões, fígado, pâncreas, intestino, rins, córneas, veias, artérias, tendões, pele e ossos.
  Hoje, o Brasil tem o maior programa público de transplantes do mundo; este programa é realizado com muita seriedade e, além disso, o SUS (Sistema Único de Saúde) financia 92% dos transplantes realizados no país.
 O Sistema Nacional de Transplantes do Ministério da Saúde é responsável pela fiscalização e pelo gerenciamento das atividades de captação e distribuição de órgãos e tecidos para transplantes. Todos os órgãos e tecidos captados são distribuídos segundo o sistema de Lista Única, ou seja, seguem um conjunto de critérios específicos de distribuição, selecionando o receptor adequado.
Portanto, não é porque algumas pessoas têm mais dinheiro que outras que irão receber os órgãos primeiros. A fila é única, porém a espera é grande, pois há muitas pessoas na espera.
Existem grandes oportunidades para diminuir as longas filas para transplantes no SUS. As metas governamentais de redução da fila para transplantes parecem ser realistas e factíveis com esforços moderados, desde que sejam permanentes, dada a grande sensibilidade (elasticidade) das filas às melhorias nas taxas de atendimentos ao paciente. A melhoria do atendimento SUS pode aumentar a predisposição geral para a doação de órgãos e, conseqüentemente, diminuir as filas para transplantes.
 Uma parcela significativa dos pacientes candidatos a transplantes morre antes do atendimento, devido à falta de informação e conscientização das pessoas. O acesso às informações adequadas poderia evitar que este tipo de situação acontecesse, mas as pessoas ainda acreditam em mitos e acabam tendo medo de doar seus órgãos.
O quadro abaixo nos mostra o tempo máximo para retirada dos órgãos e o tempo que cada um pode permanecer fora do corpo, antes da realização da cirurgia.

Órgão / TecidoTempo máximo para retiradaTempo máximo de preservação extracorpórea
Córneas6h após a Parada Cardíaca (PC)7 dias
CoraçãoAntes da PC4 a 6 horas
PulmõesAntes da PC4 a 6 horas
Rins30 minutos após a PC48 horas
FígadoAntes da PC12 a 24 horas
PâncreasAntes da PC12 a 24 horas
Ossos6h após a PC5 anos

Um fato real

Deus escolheu meu filho...
Quando recebi a notícia de que meu filho Ricardo sofrera um acidente de automóvel e que seu estado era muito grave, uma sensação de estranho amargor tomou conta de mim. Tive uma intuição de que acabara de perder meu amado filho e que nenhuma gota de esperança aliviaria meu sofrimento naquela hora. No Hospital, o vimos ainda com o seu semblante reconhecível, porém em estado de coma, deitado em uma maca, sendo conduzido para o centro cirúrgico.
Foi a última lembrança viva que ficou comigo, porque depois disso, na UTI, aquele corpo com a face desfigurada, em nada se parecia com o Ricardo, bonito, sorridente e feliz. Respirava sob controle de aparelhos e, infelizmente, não havia um fio de esperança de que ele sobrevivesse, pois havia sofrido traumatismo craniano de alto grau de gravidade.
Na manhã seguinte, foi constatada a morte cerebral, que já era esperada; podendo, então, ser iniciado o processo de doação de órgãos: córneas, coração, pulmões, fígado, rins, ossos e pele.
A decisão de doação tinha sido resolvida em conjunto pelos familiares, os quais não tiveram a menor dúvida de que este ato seria o desejo de Ricardo.
Ricardo era muito bom médico e um ser humano admirável, reconhecido por todos que tiveram a oportunidade de conviver com ele, desde nossos parentes e amigos, até os amigos de seus irmãos, os chefes, pacientes, colegas, subalternos, vizinhos e empregados. Ele transmitia felicidade e bom humor.
Era inteligente, culto, saudável, prestativo e harmonizador. Por mais de 41 anos tivemos a graça de termos um filho admirável, carinhoso, dedicado e amigo... Uma graça valiosa. Como esposo, construiu um casamento ajustado, com muito amor e planejamento. Era acima de tudo um grande companheiro de sua esposa. Ricardo foi especial e será sempre amado por todos nós!
A manifestação maciça de pessoa que acorreu no seu enterro, e depois nas missas que se sucederam, comprovou o quanto era admirado e querido, e o quanto foi generoso, inclusive na morte.
Seus órgãos foram doados, tendo sido salvas seis vidas que ainda hoje se encontram recuperadas, sem problemas de rejeição; dentre elas, a do ator Norton Nascimento, que teve repercussão nacional, fartamente divulgada pela imprensa, e que causou emoção profunda nas pessoas e, conseqüentemente, um sensível aumento de doação de órgãos, em todo o Brasil.
Quem recebeu aquele coração, recebeu um bom coração, bom de saúde, bom de bondade!
Meu filho morreu de maneira gloriosa, fazendo o bem até na hora da morte.
Em todos nós, familiares, esta doação serviu como um conforto, quando então nos conscientizamos que sua morte não foi em vão. Havia uma razão... Um mistério em todas as coincidências que ocorreram, as quais só poderão ser explicadas através do plano de Deus.
“Se você ama, não chore por mim.”
Bráulio de Freitas Oliveira, Pai de Ricardo, doador do coração do ator Norton Nascimento.
Colaboração: Regiane Aparecida de Mari Lima. 
Última atualização em Seg, 29 de Setembro de 2008 15:57
 

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